Memórias - A verdade sobre a medidinha

Aconteceu nos anos 80, não me lembro exatamente quando, mas devia ter por volta de 5 ou 6 anos de idade.
        Minha avó Nilde morava numa casa com um quintal enorme lá na rua João Batista. Tinha pé de goiaba, de mexerica, de pitanga, além de uma boa área cimentada e mais duas pequenas edículas: uma no fundo do quintal e outra perto da casa.
       E foi nessa edícula próxima à casa que tive uma das primeiras experiências de comprovação da verdade em minha vida.
          Brincava eu sozinho naquele “quartinho” (era assim que chamávamos) onde meu avô Darci guardava ferramentas e algumas tranqueiras, quando me assustei com um pequeno pardal que adentrou pelo vitrô, pousando bem na borda da medidinha.



       A medidinha era um daqueles copinhos de pinga que cabem uma dose única. Ficava na beirada do vitrô do quartinho, bem lá no alto, pra que nenhuma criança viesse a mexer e quebrá-lo, acho eu, já que parecia um brinquedo perto dos outros copos da casa.
      Eu estava mais ou menos no meio do quartinho, entre o vitrô e a porta de saída quando o danado apareceu. Fiquei congelado por um tempo, pensando no que poderia fazer ali. Se fizesse algum movimento brusco, o passarinho voaria e, provavelmente, seu impulso inicial derrubaria a medidinha. Que situação! 
        O que fazer então? Correr pra tentar salvar a medidinha no ar enquanto estivesse caindo, ou tentar sair em silêncio pra que, quando a desgraça acontecesse, eu já não estivesse mais no quartinho?
       Apesar da pouca idade, tinha total noção de que presenciava um fato único e extraordinário, e que, caso o pior viesse a acontecer, dificilmente seria inocentado dizendo a verdade.
        Como tinha muita coisa no caminho até o vitrô, resolvi recuar até a saída e logo no primeiro movimento que fiz o pardal se assustou, lançando a medidinha ao ar como esperado. Num reflexo ainda tentei correr para salvá-la mas não houve tempo, o copinho se espatifou no chão. O barulho de vidro quebrando alertou os adultos e eu então me preparei para a bronca.
            _ O que você fez aí menino?
            _ Não fui eu, foi o passarinho...
        Acho que nem preciso dizer que ninguém acreditou em mim.
        Se fosse hoje em dia diriam: “Que imaginação, quanta criatividade, é muito inteligente!”. Mas os tempos eram outros.
      Não me lembro se fui ou não punido pelo ocorrido, mas lembro que bati o pé e fui sincero até as últimas conseqüências, a verdade era aquela e ponto final.
       Mentiroso? Não mesmo. Deus é minha testemunha. Maldito passarinho!

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